ESTAMOS A FINGIR QUE NÃO VEMOS

ESTAMOS A FINGIR QUE NÃO VEMOS

Já tive a oportunidade de partilhar fóruns de discussão com Rita Valadas, Presidente da Cáritas Portuguesa, uma mulher que admiro, pelo seu pragmatismo, visão e capacidade de trabalho. A jornalista Rita Neves Costa, no Jornal de Notícias (15/02/2026), conduziu uma entrevista interessante, colocando questões pertinentes, compensadas com respostas inteligentes. Destaco cinco tópicos que considero relevantes:

1) Temos famílias inteiras, com crianças, a viver em quartos. Estamos a fingir que não vemos.

2) As emergências são permanentes e têm muitos tons, padrões e dificuldades.

3) Não me parece que a solução para a pobreza seja uma estratégia. A solução deve ser multifuncional e envolver várias áreas.

4) A pobreza não pode ser vista de longe, tem de ser vista de perto e deve convocar todos.

5) Tem de estar toda a gente alinhada. Não é atirando dinheiro que se resolvem os problemas. É atirando vontade e responsabilização que podemos fazer a diferença.

A questão da sobrelotação das casas e dos quartos; a falta de condições habitacionais, a habitação precária, ou mesmo a inexistência de um teto faz-se sentir mais nos grandes centros urbanos, mas não deixa de ocorrer em cidades de média ou pequena dimensão em todo o país. Sim, há famílias inteiras a viver em quartos, em garagens, em anexos, na rua. Uma realidade que nos envergonha a todos, numa lógica de responsabilidade coletiva. Há apartamentos, nos quais cada divisão vive uma família, onde poderão estar a pugnar pela sobrevivência 15 a 20 pessoas…

Ocorrer a emergências, cada vez mais complexas e imediatas, obriga a um profundo conhecimento das pessoas, das famílias, da comunidade e do território. À noção da realidade, por vezes distante do idealizado e desenhado, a regra e esquadro, no conforto dos gabinetes, é fundamental somar conhecimento técnico e capacidade de agir coordenada e articuladamente.

Concordo que a solução deve ser multifuncional, mas também considero que ter uma estratégia pode ser importante, desde que seja exequível e ajustada às realidades de cada território. A resposta à pobreza tem que ser global, não podemos esperar que seja o Estado central a resolver tudo, até porque a sua incapacidade está à vista de todos nós. Os recursos financeiros devem ser acautelados, mas de pouco servem se não houver um pensamento estratégico, partilhado, co-construído e articulado. Quem não sabe para onde vai nenhum vento é favorável (pensamento atribuído Séneca).

Em 2024, o risco de pobreza diminuiu. Portugal foi distinguido, pela revista “The Economist”, como a economia do ano em 2025. Dois indicadores positivos que não devem fazer-nos esquecer o início do Ensaio Sobre a Cegueira, a minha obra preferida de José Saramago: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”

José Carreira – Presidente das Obras Sociais Viseu



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